Sífilis (lues)

Etiologia:

A sífilis é uma doença infecciosa e sexualmente transmissível, eventualmente, transmitida durante a gestação ou por transfusão sanguínea.

Agente: Treponema pallidum

Este treponema é capaz de penetrar na pele e mucosas íntegras.

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Dados Epidemiológicos:

Doença universal que atinge todas as raças.

Maior incidência nos homens. (10-20:1), entre 15 a 55 anos de idade.

Fatores de risco: baixo nível social, homossexuais, grande número de parceiros e infecção pelo HIV.

Os pacientes não tratados evoluirão da seguinte forma:
15,8% com sífilis cutânea tardia ou outras formas.
10,4% com sífilis cardiovascular.
6,6% com neurossífilis.
10,8% vão a óbito.
56,4% evoluem sem lesões ou curam.

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Manifestações Clinicas:

Classificamos a sífilis em congênita (transmissão via placentária) ou adquirida.

A forma adquirida é dividida em recente (menos de 1 ano de doença) e tardia (mais de 1 anos de doença).

As manifestações clínicas da sífilis adquirida são subdivididas em sífilis primária, secundária e terciária.

Sífilis primária: surge no local de inoculação do treponema a lesão inicial da doença, também conhecida como ”cancro duro”, caracteriza-se por uma pequena úlcera, rasa, não purulenta e indolor. A genitália é o local de preferência, porém a cavidade oral, o útero e ânus podem ser acometidos. O cancro duro inicia após 3 ou 4 semanas do contato sexual e sua regressão ocorre em até 4 semanas. Os cancros localizados fora do alcance dos olhos podem passar despercebidos.

Sífilis secundária: inicia 6 a 8 semanas após o surgimento do cancro, nesta fase, as lesões são polimorfas e representam reações dos tecidos ao bacilo que foi disseminado por via linfática e hematogênica. Podemos encontrar manchas, pápulas ou placas eritematosas, generalizadas, simétricas e não pruriginosas, lesões palmoplantares, o colarete descamativo de Biet, micropoliadenopatia generalizada, alopecia em clareira (não cicatricial), madarose, condiloma plano e sífilis anular (sífilis elegante). O paciente pode apresentar sintomas gerais, hepatite, esplenomegalia, síndrome nefrótica, artralgias, irites, osteíte com periostite e anormalidades de células e proteínas do LCR (em 5% dos casos). Na cavidade oral,  podemos encontrar a placa mucosa (placas dolorosas recobertas por uma pseudomembrana acinzentada em palato mole, língua, mucosa jugal e mucosa labial) e o condiloma latum ou condiloma plano. A sífilis ”maligna”, que ocorre na fase recente da doença em pacientes com HIV, é caracterizada por lesões destrutivas e úlcero-necróticas, que corresponde a uma vasculopatia oclusiva de vasos de médio calibre.

Sífilis terciária (tardia): acomete pele e mucosas. As lesões são destrutivas e deixam cicatriz, caracterizam-se por tubérculos, nódulos e/ou gomas, localizados em face, palato, cavidade nasal e língua. Lesão gomosa no pênis é chamada de “pseudocancro redoux”, e quando localizada sobre cicatriz de cancro duro é chamada de “cancro de redoux”. Nesta fase, outros sistemas são acometidos como o cardiovascular, neurológico, ósseo-articular, urinário, etc. Na cavidade oral, os pacientes podem apresentar lesões gomosas em palato e língua, além da “glossite luética” (erosões e perda das papilas filiformes no dorso da língua).

Sífilis cardiovascular: pode acometer a porção superior do septo interventricular, a parede livre do ventrículo esquerdo e grandes vasos, principalmente a porção ascendente da aorta.

Neurossífilis: o sistema neurológico pode ser acometido em todas as fases da doença, o quadro pode ser assintomático, apresentar sintomas meníngeos (acometimento recente) ou sintomas de acometimento parenquimatoso (tardio).

Neurossífilis meningovascular: cefaleia, vômitos, rigidez de nuca, convulsões, paralisia de nervos cranianos e alterações do comportamento.

Neurossífilis parenquimatosa: paralisia geral progressiva, tabes dorsalis e atrofia óptica. Na tabes dorsalis, o paciente pode apresentar artropatia de Charcot, paralisia do 3º par, provocando a “fácies tabética” e movimentos involuntários “de pianista”.

A sífilis congênita ocorre quando a mãe infectada transmite a doença para o feto durante a gestação. A passagem do treponema através da placenta pode ocorrer em qualquer período gestacional, porém, o risco é maior no primeiro ano de infecção materna.

A sífilis congênita é classificada em recente (manifestações ocorrem nos dois primeiros anos de vida) e tardia (manifestações após os primeiros dois anos).

Sífilis congênita recente (manifestações): coriza, rinorréia, destruição e deformidade do nariz, lesões bolhosas (pênfigo sifilítico), lesões semelhantes ao estágio secundário da doença, rágades, cicatrizes atróficas de Parrot, alterações ósseas (sinal de Wimberger, osteocondrite de Wegener), pseudoparalisia de Parrot, hepatoesplenomegalias, poliadenopatia, coroidorretinite, glaucoma congênito, acometimento renal, pneumonia alba, etc.

Sífilis congênita tardia (manifestações): queratite intersticial, hidro-artrose de Clutton, osteoperiostite hiperplásica, dentes de Hutchinson, molares de Mulberry, tíbia em “lâmina de sabre”, “nariz em sela”, sinal de Higoumenakis (espessamento da porção medial da clavícula), surdez e acometimento do sistema nervoso central (semelhante aos adultos).

Tríade de Hutchinson: queratite intersticial, surdez do oitavo par craniano e dentes de Hutchinson.

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Diagnóstico:

Clínico, histopatológico, microscopia de campo escuro (padrão ouro), pesquisa direta com coloração (prata-Fontana/Tribondeau, Giemsa, métodos de Burri ou Levaditti), imunofluorescência direta com anticorpos antitreponêmicos, testes sorológicos não específicos (RPR e VDRL) e testes específicos (FTA-abs, TPHA, IgM-TPHA, TPI, RPCF e FTA-200).

Após 10 a 15 dias de inicio do cancro começam a positivar-se as provas sorológicas nas seguinte ordem: FTA-abs, TPHA, VDRL e TPI.

Cepas de Nichols (antígeno utilizado): cepas vivas, virulentas, alto custo e oriundas de testículos de coelhos (TPI, FTA-200, TPHA).

Treponema de Reiter (antígeno utilizado): meio artificial, não virulento e baixo custo (FTA-abs, RPCF).

Fenômeno pró-zona: ocorre falso-negativo por excesso de anticorpos em relação aos antígenos na amostra.

Pesquisa direta (prata de Fontana): treponema se cora em marrom.

Pesquisa direta (Giemsa): treponema se cora em vermelho claro.

Pesquisa direta (método de Burri com tinta da china): treponema branco sobre fundo escuro.

Histopatológico (muda de acordo com o tipo de lesão):

Sífilis primária: presença de hiperplasia pseudoepiteliomatosa e inflamação na epiderme. Na derme, ocorre um denso infiltrado contendo linfócitos, histiócitos, neutrófilos e plasmócitos conspícuos. Os vasos sanguíneos têm paredes espessadas e células endoteliais tumefeitas, a ulceração geralmente é evidente.

Sífilis secundária (muda de acordo com o tipo de lesão):

Mancha: apresenta um infiltrado perivascular esparso, composto por linfócitos, histiócitos e poucos plasmócitos.

Pápula: encontramos acantose, hiperplasia psoriasiforme, espongiose variável e paraqueratose. O infiltrado é perivascular e perianexial, misto, superficial e profundo, com plasmócitos em faixa. Os vasos estão espessados e as células endoteliais tumefeitas. Pode ocorrer alteração de interface. As lesões pustulosas podem apresentar neutrófilos dérmicos ou epidérmicos.

Nódulo: apresenta componente granulomatoso, pode mimetizar sarcoidose.

Sífilis terciária (goma): ocorre necrose central, circundada por um infiltrado misto com plasmócitos, linfócitos e histiócitos, endarterite e fibrose.

Coloração: Warthin-Starry

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Diagnósticos diferenciais:

Herpes genital, cancro mole, pitiríase rósea, erupção por fármacos, hanseníase, sarampo, linfomas, condiloma acuminado.

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Tratamento:

Sífilis recente: penicilina benzatina 2.400.000 UI, intramuscular, dose única.

Sífilis tardia: penicilina benzatina 7.200.000 UI, intramuscular, administrada em 3 doses de 2.400.000 UI, IM, a cada 7 dias.

Alergia à penicilina: doxiciclina 100 mg, VO, 12/12 horas, por 15 dias ou tetraciclina 500 mg, VO, 6/6 horas, por 15 dias ou eritromicina 500 mg, VO, 6/6 horas, por 15 dias ou ceftriaxona, 250 mg, EV ou IM/dia, por 10 dias.

Na sífilis tardia, latente, cutânea e cardiovascular: doxiciclina 100 mg, VO, 12/12 horas, por 4 semanas; tetraciclina 500 mg, VO, 6/6 horas, por 4 semanas; eritromicina 500 mg, VO, 6/6 horas, por 4 semanas.

Na neurossífilis assintomática e nas formas oligossintomáticas: penicilina procaína, 600.000 UI/dia, IM, durante 20 dias.

Na neurossífilis parenquimatosa ou nas formas mais graves: penicilina cristalina, 24.000.000 UI/dia, IV, durante 20 dias, ou doxiciclina 400 mg/dia, VO; cloranfenicol 4g/dia, IV, 20 dias, ou ceftriaxona, 2g/dia, IV ou IM, 20 dias.

Reação de Jarish-Herxheimer: ocorre 8 a 24h após a administração da droga. O paciente apresenta cefaleia, calafrios, mialgia, artralgia e as lesões cutâneas ficam mais evidentes. A reação ocorre devido uma hipersensibilidade provocada pelo contato antígeno-anticorpo, onde o antígeno é representado pela fragmentação dos treponemas.

Controle de cura: exames sorológicos no 3º, 6º e 12º mês após o tratamento. As provas sorológicas devem estar reduzidas em 4 vezes e o paciente não pode apresentar manifestações clínicas após 6 meses do tratamento. Caso contrário, a punção de LCR deverá ser realizada para guiar um novo tratamento.

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